quarta-feira, 30 de abril de 2008

O mergulho e a liberdade.

"O homem é espírito, é a síntese de finito e infinito, de temporal e eterno, de liberdade e necessidade." (KIERKGAARD)


O desespero do homem é o algo a mais que o diferencia dos outros animais, por isso o desepero é a prova do existir, e não do rebaixar-se. Para kierkgaard a existência do homem se procede em 3 estágios; o estético, o ético e o religioso.
No estado estético ocorre a busca de sentido para a existência, nessa busca ele está sob domínio dos sentidos, dos sentimentos, procura o prazer nos instantes, faz o que lhe "dá na telha", mas acredita que essa possibilidade de agir sem impedimento nenhum não lhe traz satisfação. Permanecer nesse estágio é condenar-se à depravação, e mergulhar em uma existência vazia. No segundo estágio, que é o ético, mesmo com o espírito livre o homem se limita pelas imposições sociais, esse estágio conscientiza o homem de suas falhas, mas não consegue lhe responder pelas perguntas existenciais as quais ele anseia. O último, o estágio religioso, reina sobre os outros estágios, está acima da razão e da moral pois só a fé responde as questões ligadas ao mal.
Tendo entendido esses estágios da existência podemos analisar de uma forma mais direcionada o estágio de existência em que se encontram alguns dos personagens de "laços de família". Alguns estão no estágio ético, com a liberdade avassaladora, outros em um estágio estético, com a mesma liberdade e ainda sem a preocupação com os valores sociais e outros, e menos, em um estágio religioso, onde o personagem acredita descobrir a função do mal e descobre assim o motivos de suas angustias, consequentemente, o mistério do existir.

terça-feira, 29 de abril de 2008

Quando a mulher escreve...


"vos pergunto:
– Qual é o peso da luz?
E agora – agora só me resta acender um cigarro e ir para casa. Meu Deus, só agora me
lembrei que a gente morre. Mas – eu também?!
Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos."
Sim (LISPECTOR, 1984, p. 97-8).



Não vim aqui dar impressões feministas. Eu não sou feminista. Mas quero fazer uma breve observação sobre a narrativa feminina, esse tipo tão especial. A narrativa que parte de uma mente feminina (não de um eu-lírico feminino, mas de autenticidade feminina) é uma narrativa que trás consigo toda a riqueza da história da mulher na sociedade. Suas lutas frustradas, suas conquistas, os preconceitos que sofraram, a opotunidade tão nova de escrever. A mulher escreve com a alma, mesmo que não seja poesia, a linguagem é translúcida, mágica, carregada de um sentimento típico da mulher, que registra a possibilidade de reprodução, a sensibilidade de quem é capaz de carregar em si uma outra vida, e que só agora pode falar o que pensa sem ser diminuída.
A escrita masculina é uma escrita que deve ser respeitada, os homens se destacam por suas observações racionais, e alguns por terem mais sensibilidade do que outros. Os grandes nomes, os grandes poetas, tudo isso são conquistas masculinas que não podem ser consideradas. Mas, e se as mulheres tivessem voz nessa época? Com toda a certeza hoje teríamos informações muito mais minusciosas do que temos sobre fatos históricos, sobre a família, sobre a sociedade em geral. A sociedade é masculina, isso é fato. Por isso talvez a escrita da mulher seja tão poética, como se pedisse passagem, como se escrevesse humildemente, gentil, reconhecendo a grandiosidade que existe nessa possibilidade de traduzir coisas tão pessoais através das palavras. Quando uma mulher se refere ao outro ela desvenda o olhar tão possibilitado que tem do mundo, com todas suas peculiaridades, seus sonhos, seus desesperos, suas crenças. Quando uma mulher escreve ela revela, a si e ao mundo.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A dor da guerra




"(...) o que ela era, era apenas uma pequena parte de si mesma". (Clarice Lispector)

A segunda grande guerra mundial influenciou vários poetas, escritores, físicos, e inclusive donas-de-casa, que deixavam transparecer o seu desentendimento diante das novas possibilidades de ação humana. A capacidade do homem em destruir, em massa, o seu semelhante, de desencantar o sentido da vida em alguns minutos, através da guerra, se mostrou muito influente na literatura; tanto a primeira, que coincide com o surgimento da filosofia existencialista e com a fenomenologia, quanto com a segunda, que antecede o surgimento de “laços de família”.A literatura “pós-guerra” tem características muito peculiares, repletas da “dor do mundo”, da capacidade de o homem se ver agora como sendo cheio de façanhas e se sentir, por um lado um fraco, por estar submisso as agressões e decisões de grandes potências bélicas, como por outro lado, um deus, que tem a capacidade de criar objetos com tão grande potência que pode degradar e disseminar uma quantidade enorme de vida.

Isso não pode ser desconsiderado...



P.S: A imagem é de um quadro de Clarice pintado por De Chirico, em 45, no fim da segunda guerra mundial.

Nem tão distantes assim...


“Não quero ter a terrível limitação de quem vive apenas do que é passível de fazer sentido. Eu não: quero é uma verdade inventada” (água viva)

A fenomenologia e o existencialismo, como estudo de essencia, de subjetividade são confirmados cada vez mais nos contos que tenho lido. Logo no primeiro conto de “laços de família”, “devaneio e embriagez duma rapariga”, fica claro que a personagem mergulha em um estado de questionamento existencial, a partir de uma nova sensibilidade que tem do mundo. “Sua sensibilidade incomodava sem ser dolorosa, como uma unha quebrada” (LISPECTOR, p.11).

Tentarei aproximar-me mais um pouco da leitura sobre existencia e agora sobre a fenomenologia, que Benedito Nunes já havia detectado na poética Lispectoriana. Procurei coincidências de datas entre as filosofias que quero relacionar à contistica lispectoriana, vejamos:

Fenomenologia: nasceus na segunda metade do séculoXIX, a partir de estudos sobre a intencionalidade da consciência humana.

Existencialismo: Nasceu em meados do século XX, considera cada ser como único e mestre de suas vontades.

Clarice Lispector é de 1920, o que não a posiciona longe do surgimento das correntes filosóficas que relacionarei à sua obra.

domingo, 27 de abril de 2008

A bruxa


“Um nome para o que eu sou, importa muito pouco. Importa o que eu gostaria de ser."
Clarice Lispector


Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, na verdade, nasceu a caminho das Américas, pois seus pais eram imigrantes. Dezembro de 1920 era a data. Recebe o nome de Haia, mas por iniciativa de seu pai todos da família mudam de nome, então nossa escritora recebe o nome de Clarice. Perde a mãe com 10 anos de idade, no mesmo ano escreve "pobre menina rica". Estudou direito. Casou-se com um diplomata, razão pela qual conheceu o mundo todo. Em 1942 escreve seu primeiro romance, "Perto do coração selvagem" que é bem aceito pela crítica. Em 1966 Clarice dorme com um cigarro acesso, o que faz com que tenha o corpo parcialmente queimado e sua mão direita quase amputada. Morre em 1977, um dia antes de ser aniversário. Clarice teve uma vida muito interessante, e era uma mulher muito misteriosa, disse que nunca escreveria uma biografia, e não escreveu, mas em sua obra, bem como em suas correspondências dá pra se notar traços de sua personalidade.

sábado, 26 de abril de 2008

Um pouco de filosofia


"(...) Sou tão feliz em sentir que me calo para sentir mais; foi em silêncio que nasceu em mim uma teia de aranha tenra e leve: esta suave incompreensão da vida que me permite viver. (...)" (LISPECTOR.s/d. p.16


Para Kierkegaard a existência é uma maneira de o homem expor-se a si mesmo, é a expressão de uma existência singular, individual, um pensamento motivado por uma situação muito particular. Esse pensador, viveu em um ambiente de puritanismo luterano, e teve uma vida cheia de fatos que não podem ser ignorados e nem dispensados na relação dele com sua filosofia. Ele se liga a Hegel pela contrariedade de idéias, a oposição.

Para Hegel a idéia é absoluta, ele busca condensar a realidade num sistema e diz que o indivíduo é uma de suas fases. O que contraria a idéia de Kierkkegaard, que diz que o indivíduo não pode ser a mera manifestação da idéia, a existência não pode ser explicada através de sistemas concretos, conceitos. E ainda afirma que na vida pessoal de cada filosofo existencialista ele mesmo não usam as alternativas que recomendam aos outros. Kierkegaard admira a subjetividade e a coloca como verdade; afirma que todo conhecimento deve se ligar a existÊncia, à subjetividade.

O existir para o romântico e para o moderno


"Tudo acaba mas o que te escrevo continua" (LISPECTOR, 1978, p.14)

Em alguns romancer modernos o tédio é o estado inicial da angústia. O mundo da quotidianeidade não permite ao homem o estar em si. Muitas vezes, se conhecemos um pouco sobre o pensamento existencialista começamos a nos questionar a existência desses tipos de pensamentos nos romances românticos. Um erro.

No romantismo, apesar das características angustiantes que lemos com muita frequência, tanto na prosa quanto na poesia, a realização existencial não acontece como no modernismo. Tracei um paralelo que possibilita absorver melhor essa diferença de angústias expressas nessas duas diferentes correntes literárias:

Para o romântico a angústia não é universal, ela se dá de uma forma muito particularizada, individual, o sofrimento passa a ser mais uma indagação superficial sobre o amor do que um questionamento que atinja o nível de epifania, por exemplo. Já no modernismo a angústia é expressada de uma forma universal, ela pode ser identificada de uma maneira mais generalizada, não se trata apenas de um incômodo pessoal ou de um grupo delimitado, ela ultrapassa o mero “si” e chega a um lugar mais adiante, uma dor não só de uma alma, mas de todas as almas, um incômodo contextualizado do homem pós-guerra.

O romantismo, também surgiu de uma nova sociedade, da sede por mudanças, adequação ao novo modelo social e econômico, mas o modernismo e o pós modernismo, mas do que mudanças sociais e econômias, atingiu uma mudança psicológica, comportamental na vida do homem, ora, agora teríamos que conviver, e adequar todas as artes e todas as ciências à realidade cruel que dominava, assuatava o homem do pós-guerra. Esse evento foi primordial para delimitar novos rumos e pensamentos. No Brasil, o período dramático que reprensentou o dim da guerra, coincidiu com o período de repressão e censura, de forma que os pensamentos europeus de liberdade de expressão, de liberdade de expressão depressiva, sobretudo, eram colocadas nas obras de uma forma muito velada, muito particular, portanto, cabe a nós pesquisadores, identificar onde há correntes filosóficas ou idealistas em autores ou obras que, mesmo consagradas, não deixaram transparecer a carga de influência depressiva e angustiante que era causado pela depressão pós guerra. Os tempos de horror, mesmo findados, deixaram em nós e principalmente nos divugadores do conhecimento, das artes, da literatura, um resquício de idéias que enriquecem ainda hoje as obras.

Visão geral sobre o existencialismo e a possibilidade de ele se realizar na ficção, sobretudo na prosa.


"Toda compreensão súbita é finalmente a revelação de uma aguda incompreensão. (...)" (LISPECTOR, 1979, p.102)

Baseei-me no livro do professor José Fernandes para ter uma idéia de como o existencialismo, como corrente filosófica francesa, pode ser aplicado à literatura brasileira. O livro de nome “O existencialismo na ficção brasileira” tem me trazido a luz várias questões que eu tinha a respeito do tema, e me instigado à pesquisa sobre a possibilidade de explorar ainda mais o tema.

A existência está diretamente ligada a essência do ser humano, os dois coexistem, porém a essência é a razão da existência dos seres, porém a definição concreta e indiscutível a respeito do existêncialismo não é aceitável, já que esse é também metafísico. Existir é angustiar-se e lidar também com outros sentimentos e incômodos humanos, entre eles a tristeza e a ansiedade.

Pensando no existêncialismo como essência e vivência, afirma José Fenandes que a representação deste só pode ser estudade e analizada em literatura se fizermos um paralelo com o romance, já que esse é o único gênero no qual existe uma descrição da vivência, e existir nada mais é do que viver.

Segundo Merleau-Ponty “A obra de um romancista está sempre sustentada por duas ou três idéias filosóficas”, e essa a intenção da pesquisa, encontrar no romance características do existencialismo francês, que é considerado uma corrente filosófica.

Na arte, a existência consiste em a posse do homem em se sentir viver, portanto a prosa é mais completa para se fazer o paralelismo entre literatura e existência, pois nela podemos identificar o homem sendo e existindo. Muitas vezes nos questionamos a necessidade do questionamento existencial. Ele existe justamente para fins de conscientização, tanto é que “oficialmente” o existencialismo como conhecemos hoje surgiu no período pós guerra, apesar de que “embriões” dessa forma de pensamento já existiam antes das décadas de 40 e 50.

As características, colocadas de um modo muito geral sobre o comportamento de uma pessoa dita existencialista são; a livre escolha, a auto-afirmação e o amor pessoal –e tudo isso é impossível sem que haja angústia e sofrimento. Para Sartre, um dos expoentes nesses estudos o homem é um sofredor poque é capaz de reconhecer, de alguma forma o seu estado de inferioridade. O homem sartriano é angústia, e o tédio e o estágio inicial de angustiar-se.

Objetos e nomes


"O que estou escrevendo não é pra se ler - é pra se ser." (LISPECTOR, 1978,p.38)

Lendo o livro " A reta artística de Clarice Lispector", de Zizi Trevisan pude ter um apoio sobre a monografia que pretendo criar, Zizi Trevisan notou em Clarice Lispector, especificamente em seus romances, uma certa vinculação à fenomenologia e ao existencialismo de Kierkgaard, Heidegger e Sartre. Tentarei relacionar estudos sobre esses filósofos a personagens dos contos Lispectorianos, sobretudo em "Laços de família". Tentarei falar mais especificamente sobre cada um desses pensadores, bem como da própria Clarice Lispector, procurando traçar um leve paralelo entre suas idéias e só então entrar na análise existencial contida em seus contos. Para Clarice escrever e ser eram atos inseparáveis, então, desde já podemos ver o quanto a existência é influente em sua obra ficcional.
Para o nome do blog selecionei uma frase contida no romance " O Lustre", seu segundo romance, de 1946. A proposta de identificar em contos, com narrativas bem breves, características existenciais pode ser muito arriscada, pois a existência se configura pela vivência, então se relacionasse o tema a um romance esse traço poderia ser identificado com mais facilidade, mas, atráves de hipóteses, teses, dissertações e pesquisa tentarei apresentar ligações entre o tema proposto e o gênero selecionado por mim.