sexta-feira, 2 de maio de 2008

Associação de idéias.



"Onde aprender a odiar para não morrer de amor?" (LISPECTOR, "Laços de família")


Lendo o último post, sobre os três estágios da existência, proposto por Kierkgaard, e pensando em um personagem dos contos de Clarice Lispector, quero tentar associar um dos estágios a um dos personagens. Selecionei a personagem de "Laços de família", do conto "feliz aniversário". A aniversariante, uma senhora que na ocasião fazia 89 anos e que está mergulhada em um vazio tão grande, que nem mesmo recebe um nome. O conto demonstra que a mulher idosa representa quase que uma missão para sua família, que vê nela, uma peça, que deve ser preservada. No decorrer da festinha de aniversário a senhora vai demonstrando que mesmo idosa, está mergulhada em várias questões existenciais, que não está satisfeita, e até angustiada com a vida que tem levado, e com o modo que é visto pelos familiares. " E de súbito a velha pegou na faca. E sem hesitação , como se hesitando um momento ela toda caísse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina." (LISPECTOR), percebo que essa senhora analisa a vida de sua família, com tremendo preocupação estética, e já não se vê mais membro dela. Acredito que ela esteja mergulhada na primeira fase existêncial proposta por Kierkgaard, de liberdade total, sem mais preocupações com as pessoas ao seu redor, ser se preocupar com o que vão dizer, vão falar. Está na fase estética. "...impotente à cadeira, desprezava-os." (LISPECTOR). Devagar, sua empregada ia revelando as "novas atitudes" da senhora, como cuspir se reprovasse alguma comida, o que só confirma sua angústia e questionamento existencial. O mais lindo de tudo é a forma como o conto é conluído, com as pessoas indo embora, e a vida tomando o mesmo rumo, induzindo-nos a pensar que o questionamento, a procura pela razão da existência nunca acaba, é uma constante insaciável.

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